Primeiro, avisando, eu precisava colocar aqui essa lembrança, além de achar necessário avisar que é longa, bem longa... então
Meu pai se foi há quase quatro anos. Ele sempre foi um pai um pouco distante. Eu não entendia o porquê daquela ausência toda. Minha mãe e ele estavam separados há muitos anos, quase 30! Meu pai aprontou muito com ela e minha mãe teve que ser forte numa época em que todos a julgaram mal pela saída de casa com 4 filhos muito pequenos, mas ela tinha que fazer algo senão enlouquecia. Meu pai não era fácil, mulherengo demais.
Depois da separação, ainda pequenos, nos víamos todo fim de semana, quando ele ia nos buscar pra irmos ao cinema, ao parque de diversões, pra sua casa, enfim. Ficávamos mais perto dele nesse tempo do que quando vivíamos juntos. Maravilhosos fins de semana com papai.
Crescendo, fomos ficando mais distantes. Ele foi tendo mais e mais filhos pelo caminho. No fim de sua vida, descobrimos que tínhamos mais irmãos do que imaginávamos. Ao todo, meu pai pelo que até agora sabemos, fez 10 filhos.
Dois deles, conheci no dia de sua partida. E foi uma alegre surpresa ter outras irmãs tão simpáticas e bonitinhas como elas.
Eu criei uma barreira muito grande entre mim e papai porque achava que ele não gostava de mim. Como sempre, eu e minha baixa autoestima.
Ele tinha uma frieza na minha adolescência que condizia com minha timidez e medo de não agradar. Para mim ele só gostava da minha irmã mais velha.
Não era verdade. Eu fui descobrir isso, no último dia dele com vida.
Sempre me achei a pessoa menos importante na vida de alguém. Dele inclusive. Sempre achei que as pessoas não me amavam e assim cresci, tímida, quieta, feito um bicho do mato. Me distanciava das pessoas que amava, como medo de não agradar, de não bastar. E assim cresci, entre meus livros, meus sonhos, meus traumas, meus medos. Amando tanto, mas não sabendo falar sobre esse amor.
Um dia meu pai ligou coincidentemente no meu aniversário de15 anos, sem saber da data, minha mãe falou pra ele que era meu aniversário enquanto eu escutava sem querer na extensão. Ele simplesmente falou: „ah é?? A Nirley tá ai??“ (minha irmã mais velha)

Desde esse dia, eu criei a tal barreira, quase intransponível entre nós dois, no meu aniversário de 15 anos, meu pai quis falar com minha outra irmã...
Pronto. Ali foi criada a barreira.
Evitava sempre contato com ele. Foi-se passando os anos. E a raiva foi diminuindo. Mas a barreira continuava. A gente se via praticamente somente uma vez ao ano, porque eu já morava em outra cidade e meu pai tinha outros interesses e outros filhos pra dar um pouco do seu carinho. Um com cada mulher diferente. Ele só teve nós 4 com a mesma mulher.
Meus outros irmãos devem ter também seus problemas com nosso pai mas também suas boas lembranças com ele. Sua ausência doeu no transcorrer das nossas vidas, eu tenho certeza, e em cada um de nós, de forma diferente, existe uma parcela de dor e saudade do que nunca tivemos com papai.
Os meus filhos nasceram, e meu pai tinha, uma vez ou outra, algum contato com eles, quando minha irmã vinha de São Paulo, ligava pra ele e ele vinha correndo nos ver a todos. Iamos passear de carro com ele, visitar uma irmã dele muito querida. E pronto. Mas eram dias tão agradáveis na sua companhia. Agradáveis como eram os dias no cinema vendo os Trapalhões, ou no parque de diversões, enquanto ele ficava lá embaixo, nos olhando orgulhoso, e nós felizes da vida, acenando pra ele e virando de cabeça pra baixo na montanha russa.
Um dia, quando estava ainda grávida da minha primeira filha,
Laura, com quase 4 meses, fomos a casa dele, e foi a primeira vez que pude sentir a Laura mexendo na minha barriga. Fiquei tão emocionada e papai me viu feliz, grávida, esperançosa.
Depois que os meninos cresceram, papai era tão desligado, que nem mesmo lembrava os nomes dos netos. „Como você se chama minha filha? Ahh Laura! Você sabia que esse era o nome da sua bisavó torta? Aquela que cuidou de mim quando era criança? E que esse também era o nome da avó da sua mãe??“ e Laura só repetia: „sei vô, sei!“
E assim, desse jeito maluco dele, de fala rápida e engraçada, a gente ia levando nossos poucos encontros anuais. Mas ele sempre era tão carinhoso com a gente. Sempre.
Eu adorava ter esse contato com papai . Queria que tivessem sido menos raros, mas por medo, eu não o procurava, eu achava que ele só queria me ver, se fosse junto com as outras irmãs. Eu tinha medo dele não gostar de encontrar só a mim. Como fui boba!
No nosso penúltimo encontro, ele foi nos buscar na casa da minha mãe. Todos juntos, saimos na sua D20 velha, ele com seu chapéu de cowboy, de cabelinhos brancos apesar de novo, 65 anos, engraçado, sorridente, orgulhoso. Fomos visitar nossa tia Ceci, irmã querida dele. Foi uma tarde tão agradável. Lembro que eu lhe perguntei porque ele havia me dado esse nome que não combinava: Nina Rosa. Ele ficou ofendido, disse que eu deveria ter orgulho do meu nome porque era o mais bonito que ele já havia escolhido para os filhos. Na casa da minha tia, ele olhou pra mim, e disse: „Nina, você tem estilo minha filha. Gosto do seu jeito“. E minha tia falou o mesmo pra mim. Ela tocou violão aquela tarde pra nós, e pediu pra gente fazer muitas fotos, porque um dia como aquele, com todos juntos, com nosso pai, era raro... ela não sabia, mas ela também iria fazer a tal viagem, dois meses depois daquela tarde cheirosa, de sol ameno. Minha tia morava perto de uma fábrica de café, sempre que íamos pra lá, tinha aquele cheiro gostoso de café no ar. Minha tia morreu e meu pai que a adorava, se formou na faculdade dois meses antes dela ir, duas semanas depois do nosso encontro. Ele foi professor de Geografia por muitos anos, mas só um ano antes de morrer, ele conseguiu realizar seu sonho de formar na faculdade de Geografia. Estava todo orgulhoso por ser universitário.
Num sábado à tarde, um ano depois desse encontro na minha tia, minha mãe me telefonou avisando que meu pai havia sofrido um acidente de motocicleta e que estava em coma.
Eu nunca chorei tanto na minha vida como naquela tarde. Passei sábado, domingo, segunda, terça feira, toda chorando. No meu trabalho, meu chefe falou junto com minhas amigas que eu deveria ir a Manaus (nessa época, morava em outra cidade, há 300Km da capital do Amazonas). Eu não podia, trabalhava, e ninguém podia entrar na salar de UTI. Mas mesmo assim, fui. Na quarta feira de madrugada.
Uma noite antes, sonhei com os pés do meu pai. Pés brancos, unhas longas, amareladas. Acordei assustada. Viajei a Manaus, 4 horas de viagem, e fui ao hospital que ele estava em coma. Lá encontrei meu irmão mais velho. Ele estava indo lá todos os dias, mas na sala da UTI, só podiam entrar duas pessoas por dia, uma de cada vez. Meu irmão falou que eu deveria entrar, já que morava tão longe, porque ele estava sempre lá. Então entrei agradecida.
A primeira coisa que vi foram os pés do meu pai exatamente como no sonho. E ele estava lá, irreconhecível, sem cabelos, com tubos na cabeça. Em coma. A médica de plantão falou que ele deveria reagir, mas não reagia a cirurgia que sofreu. Eu tinha pouco menos de meia hora pra ali permanecer, cheguei pertinho dele, e no seu ouvido falei tudo....

Agradeci os dias que tivemos juntos, agradeci os momentos no
cinema (nunca um cinema foi tão gostoso como aqueles com papai, vendo o Didi Mocó), os dias nos
parques de diversão, falei que o amava muito, tudo pertinho do seu ouvido. Falei o nome de cada filho que até então sabia existir, de cada neto, agradeci tudo que ele fez e repeti várias vezes que ele foi um pai muito legal. Que tinha saudade dos nossos dias juntos. Na infância. Falei que tinha muita gente orando por ele. Falei até mesmo que estava muito feliz agora, que ia casar com um alemão e que iria em breve morar na Alemanha. Isso sem mesmo saber se ia dar certo meu romance. Sem nunca ter encontrado meu marido pessoalmente, sem nunca ter falado sobre futuro com ele. Falei o que meu coração me dizia. Sem saber que isso iria mesmo acontecer alguns meses depois (atualmente moro na Alemanha).
Chorei emocionada ao abraçar meu pai em coma. Já sem nenhuma barreira entre nós. Depois de tudo isso, vi uma lágrima escorrendo do seu olho esquerdo. Tive a mais plena sensação de felicidade ao constatar que meu pai me ouviu, apesar dos médicos dizerem que isso não era possível.
Tive que sair da sala da UTI. Minha sobrinha deu lugar a um pastor, enviado pela minha outra irmã, pra ele orar pelo meu pai.
Saí do hospital, conheci minha irmã mais nova, a Alê, e uma linda sobrinha, Lidiane. Saí dali tão alegre, por ter colocado todo meu amor pra fora. E ganhar de presente uma reação do meu pai em coma. Por encontrar irmãos, reunidos na dor. Mas todos sorrindo por se reencontrarem.
Fui pra casa da minha mãe. E logo depois, na mesma quarta feira, no mesmo dia, peguei o ônibus de volta pra cidade que morava, 4 horas de viagem, feliz, aliviada, cheia de amor, apesar de triste pelo coma de papai. Cheguei em casa, e 5 minutos depois de colocar os pés em casa, minha irmã me liga avisando que meu pai havia morrido.
Meu pai havia morrido.

E eu entre lágrimas de tristeza (pela perda) e de alegria, por pensar que ele me esperou no hospital, me mostrando que eu era SIM, alguém importante pra ele.
Desde sua estada no hospital, nenhum dos filhos dele com minha mãe haviam estado no hospital, pra vê-lo. Uma morava em São Paulo, os outros dois, não tinham coragem de ver papai naquele estado, que sempre foi tão alegre, e agora em coma, era estranho e muito dolorido pra eles, e ambos tinham esperança que papai se recuperasse. Eu morava em Itacoatiara, e trabalhava aos prantos, desde que soube do coma. Até que tive coragem de ir ao hospital graças a duas amigas do trabalho que insistiram pra eu ir.
Ao abrir meu coração pra dizer ao meu pai o quanto o amava, percebi ali depois da sua partida, que ele só estava aguardando um de nós, pra finalmente ir ao chamado de Deus.
Só depois desse dia entendi seu modo de nos amar. Não era falta de amor, era somente o seu jeito de amar, distante, mas nem por isso, menos amor. Ele nos amava, a todos nós, os seus muitos filhos, à sua maneira.
Pra mim ele mostrou no seu último de dia de vida, que eu estive enganada esses anos todos, quando pensava que eu era alguém sem importância.

No meio das minhas lágrimas, já de volta a Manaus no mesmo dia, pra ir ao seu enterro, eu agradecia a Deus e a meu pai pelo presente que eles me deram, o de poder falar do meu amor pra ele ainda em vida.
Depois daquele dia eu prometi a mim mesma, que nunca mais iria guardar meus sentimentos pelos outros dentro de mim mesma e que nunca mais permitiria que alguém me destratasse, afinal, eu era alguém importante agora.
E é por isso queridas, por esse homem, que eu sempre digo que o amor está acima de tudo nessa vida. Quem diria que eu iria aprender sobre amor, exatamente com aquele que eu imaginava ter menos amor. O papai Sena.