10/07/09

Lendo pra minha vovó

Minha avó não sabia ler. Nunca soube. Nunca aprendeu e nunca quis aprender. A gente fazia os cartões de natal ou dia das mães pra ela e nem sabíamos que ela não poderia entender o que escrevemos. Eu acho que vovó disfarçava muito bem, ela olhava o cartão, elogiava a nossa letrinha e os desenhos que fazíamos no cartão e depois guardava tudinho, numa caixinha.

Só fui descobrir e entender que vovó não sabia ler, quando ela ficou doentinha pela última vez na vida.

Ela pediu muito que eu fizesse a Primeira Comunhão. Eu ia pras aulas de catecismo e aprendia as coisas e ia pra casinha dela falar o que tinha aprendido. Ela já estava mal, não saia da cama. Então, ela pedia pra eu ler a Bíblia pra ela e eu lia com uma seriedade muito grande e profunda. Apesar de não entender nada do que diziam aquelas palavras complicadíssimas, eu lia pra vovó com muito gosto.
Ela adorava a aula de todos os sábados.
Depois, como o avanço da doença, ela não podia mais falar. Ela estava impaciente, sofria, sentia dores horríveis e muito calor... e cantava uma musiquinha da sua igreja.



Cantava do jeito que ela podia, murmurando.
Eu sentia uma dor tão profunda no meu coração por ver minha vó, antes tão forte, tão corajosa, tão cheia de vida e força, presa numa cama, murmurando uma canção.
Canção que me faz chorar quando canto hoje.

Como a vida às vezes pode ser tão triste e dolorida...


Vovó sentia dores tremendas...
Mas ainda assim, ela carregava uma fé dentro dela muito bonita.

12 comentários:

Ana Filipa Silva disse...

Muito comovente a história de hoje! Quer dizer, todas são à sua maneira. Mas eu também tenho uma ligação profunda com a minha avó e a leitura, talvez por isso me tenha tocado bastante. Graças a Deus, ela mantém-se viva e com saúde, cavando na horta, passeando nas excursões organizadas na terrinha... mas quando eu era pequena não percebia como é que ela não sabia ler. Afinal, todos os meninos iam à escola e sabiam ler. (Mas no tempo dela não era assim!)Então, sentada na minha cadeirinha de verga ao lume, no Inverno rigoroso da Beira Baixa - Portugal, com os meus livros da escola primária e o material de papelaria, queria que ela aprendesse. A minha avó entrava na brincadeira, mas não aprendeu nada. Ela tem pena de nunca ter ido à escola e de não saber ler nem escrever, mas remata sempre com a seguinte frase "Nunca me deram água por azeite!" Obrigada por com estas partilhas incentivar os seguidores do blog a mexer nos seu "baú das memórias". Bem-haja!

Ana, Aprendiz de Anjo disse...

Lágrimas nos olhos, que bom que você pode curtir sua vovó... Beijos, bom fim de semana!

Léli disse...

Nossa! Também me emocionei muito Nina!!! Ainda mais que sou uma chorona assumida e choro muito.
Esta música que tua vovó murmurava é linda e eu adoro. Não vou muito a igreja, na verdade não sou praticante de nenhuma religião, mas com Minha mãe estarei e segura na mão de Deus são músicas que me tocam demais.
Minha vozinha também não sabe ler e não quer ler, então sempre que fazia um cartão eu mesma lia pra ela.
adorei a lembrança. Eu acabei lembrando até da minha bisa.
Beijão e brigada pelo bloguinho

Carlinha disse...

Ai Nina...Quando você fala da sua vovó eu fico tão emocionada, sabia? Fico pensando quando chegar a minha vez de sentir saudades da minha avózinha tão linda...Sei que terei que ser mais forte do qualquer coisa.

Sua avó já faz parte de mim também.

Clara disse...

Nina que coicidencia!! meu post de ontem foi sobre minha avó tbm, com certeza Nina são lembranças tão lindas e doloridas né, juntando o meu post e o seu estou aqui com meu coração,chorando em silêncio...as vezes me permito assim...
beijos amiga linda TE ADORO!!
OBS: muito bonita sua relação com sua vozinha!!

Biana França disse...

Nina, uma vez escrevi sobre minha vó lá no blog tbm. Ela também não sabia ler, mas era de uma sabedoria imensa. Lendo sobre sua vozinha, fiquei emocionada, por vc ter sido uma neta especial e por ela, por tudo! Linda história.
Ah, sobre o post anterior: que Deus sempre permaneça ao lado de sua Laura, parabéns a você e a ela.
Mil beijos.

tout par toi disse...

Histórias e desenhos com gostinho de abraço da vovó!

Ana Filipa Silva disse...

Quando recebi o selo e tive que enunciar três amigos para o oferecer, claro que pensei na Nina, a autora de histórias tão mimosas. Lá no Coisas Banais existe um mimo para a escritora do best-seller digital Crônicas de Uma Menina Feliz. Um abraço.

I. Monique disse...

Aaah Nina,

Minha vó como a sua, também tem uma caixinha onde guarda os bilhetes dos netos desde crianças. Também não teve grandes oportunidades na vida para estudar, mas em compensação se transformou na mulher valorosa que a conheço. Um exemplo de vida!
Imaginá-la um dia com dores em uma cama, me faz sentir, como você, tristeza profunda. Por que a vida as vezes é tão dura, neh?

beijo grande,

Inge

Márcia disse...

Nina,
Sinto muito pela sua vovó, mas tenho certeza de que sua leitura e seu carinho a traziam força e muito orgulho pra ela! E que gracinha ela procurar sempre um motivo para elogiar suas cartinhas, sinal de sua sensibilidade, ternura. Avós e mães são tesourinhos valiosos na vida da gente!
Um grande beijo querida!

as namoradas disse...

olha, nem sei como parei por aqui, mas o fato é que eu tô chorando. Minha mãe se foi há 8 meses, não sabia ler nem escrever e era muito católica, e a melhor mãe do mundo com certeza, e eu lembrei que quando aprendi a ler, ela e meu pai assinaram um jornal diário e todas as manhãs antes de ir pra aula e lia as manchetes pra eles, na volta as notícias mais interessantes.
engraçado nisso tudo é que uma pessoa sem nenhum estudo me ensinou tudo na vida pra ser uma boa pessoa.
e a música, essa música cantamos no enterro dela, por isso não secam essas lágrimas.
Beijos, obrigada por isso.
Rainbow(Fabi)

Cris Barreiro disse...

Essa sua postagem só me faz ter ainda mais certeza como é importante o papel dos avós para o desenvolvimento de uma criança. Como avós presentes e participativos na vida dos netos, vão contribuir imensamente para a solidificação de valores e a constituição de um adulto sensível e doce. Lindo...como sempre!!

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