05/01/11

Natal com vovó... natal sem vovó...

Este provavelmente é o desenho mais torto que já fiz até hoje. Eu acho que tenho um olho torto, o esquerdo deve ser mais baixo que o direito, só pode ser isso, porque ooohhh desenhinhos vagabundinhos esses. De qualquer maneira, este tem que estar aqui hoje... porque esse dia me marcou muito.... e foi assim:


Todos os natais  que lembro na vida, eram passados na casa da minha vó Laura. A família era grande demais e todos os filhos dela iam com todos os netos dela e ia todo mundo pro quintal da vó. Tios, primos e vovó reunidos, festejando a alegria de estar juntos. As ruas lá fora enfeitadas de luzinhas de natal, a mesa cheia pra ceia, os gatos que queriam participar da festa, os presentes, e o amor sendo celebrado, tendo a vovó no centro de tudo. Lembro da espera da meia noite, dos abracos, da comidinha gostosa e lembro muito das brincandeiras com os primos. Natal foi sempre a data mais importante pra família, porque todo mundo se reunia em torno da vovó, mas isso era nosso hábito todo o ano, pois a vovó era mesmo o centro da gente. Quando mudamos para a Vila Militar, mamae passou a querer festejar lá nossos natais, porque a casa era maior, tinha mais espaco pra criancas brincarem e era confortável pra vovó. Entao todo mundo ia lá pra casa. Os preparativos pra noite era a parte mais legal, quando as tias chegavam com as primas e todo mundo cozinhava junto. 

Mas teve um natal... O natal que eu nao sabia, mais virou o mais triste natal da gente. Lá em casa, na Vila Militar.

Minha avó já estava comecando a sentir as dores daquela doenca que estava escondidinha dentro dela, sorrateiramente e que a levaria da gente. Pra sempre.
Toda a família estava presente, tinha a alegria de sempre. Tava todo mundo junto. Mamae  e as outras mulheres já tinham visto o show do Roberto Carlos na tv e os primos já comecaram a brincar na nossa rua de pedrinhas. Tinha sim a alegria de sempre, mas tinha algo no ar, algo diferente , tinha sim. Minha avó nao estava com o pique de sempre, ela estava na cama, sempre deitadinha. Aquilo nao era muito normal na vovó. Eu era muito ligada a minha avó, e por isso, de vez em quando ia vê-la no quarto, porque eu sempre me preocupei muito com minha vó. Ela estava no meu quarto,  deitada na minha cama, no quarto que dividia com minha irma mais velha. Na hora de abrirmos os presentes, todos fizeram isso na varandinha, que ficava bem do lado do meu quarto, mas a vovó continuou na cama, olhando da janela. 

Presentes abertos, os nossos já tínhamos visto antes, porque nós éramos terríveis e já tínhamos bisbilhotado no armário da mamae o que provavelmente ganharíamos. Mesmo assim, ganhei a minha boneca noiva e me alegrei muito em revê-la. 
Corri pra vovó, pra mostrar a ela meu presente. Era uma boneca linda, grande, loura, de olhos azuis, que tocava uma musiquinha de casamento e era uma noivinha diferente, vestida de vermelho. Fiquei fascinada pela boneca, eu  tinha 12 anos, e ainda amava bonecas... coloquei a bonequinha chamada Lisa no chao, e ela tocou a musiquinha pra vovó ver. A vovó ficou olhando, da cama, a Lisa no chao, eu estava apaixonada pela Lisa e pela vovó, que tinha um semblante calmo, sereno, meio triste. Ela sentia dores, mas disfarcou bem, ao sorrir pra Lisa. Entao, a vovó pediu pra carregar a Lisa, olhou, elogiou, disse que era a noivinha mais linda que já tinha visto, mas que logo que ela saisse da cama e pudesse costurar, ela faria uma vestido de noiva pra Lisa, mas um vestido branco, porque ela nunca tinha visto uma noiva de vermelho! E a gente riu juntas. Rimos juntas, minha vovozinha e eu e a Lisa.

Fui brincar de volta. Vovó ficou na cama. Dormiu lá. 
Essa noite, eu nao sabia, mas ela ficaria marcada na minha mente, eternamente. Foi nosso último natal com vovó. Foi triste também porque foi o natal que vi meu namoradinho Marquinhos beijando minha prima na ladeira. No outro dia, terminei nosso "noivado", joguei o anel que ele tinha me dado no chao e fiquei de mal com minha prima  mais querida, mas sem vergonha... e vovó na cama, me prometendo fazer um vestido novo pra Lisa.

Bom, nao teve vestido novo. Nao teve mais noivado com Marquinhos. E nao teve mais nenhum outro natal com a vovó. Depois desse, que eu sabia que tinha algo de estranho no ar e no semblante de toda a família, nao teve mais natal alegre, a família parou por muito tempo de se reunir com antes, nao havia mais o elo. 

Só depois de muitos anos é que a família comecou a ter vontade de se reunir nos natais novamente. 

Hoje, minha mae mora no mesmo quintal da minha avó, com duas das tias que sempre moravam lá. E minha mae faz os encontros da família voltarem a acontecer. Os gatos já nao estao mais lá como antes. O quintal já nao é mais tao grande como antes e já nao é mais de terra batida. Mas eu acho que a vovó deve olhar lá de cima, do céu estrelado, pra gente que teima em se reunir. É que tem muita gente lá do céu olhando pra gente, prima e tia, e vó e pai... tem a festa de natal no céu também. E deve ter a Lisa lá, no céu das bonecas porque ela se foi também, há muito tempo. 

Será se tem também máquinas de costura pra vovós? E paninhos brancos? Lá no céu... será que tem máquinas de costura??
* * *

Música que vovó gostava, aqui:

10 comentários:

Michelle Pires disse...

Esse ano de 2010 foi o primeiro Natal sem minha avó. Coisa mais triste viu?
È tão difícil não ver, não tocar e não ouvir alguém que amamos e que já se foi...

Beijos NIna.

Késia Mara disse...

Oi Nina! Os Natais não são mesmo como os de antigamente quando a gente cresce. Perdi minha avózinha dia 26 de Dezembro de 2010. O mais tiste, tô longe da minha família, o elo já se foi faz algum tempo. As coisas são mesmo assim, parafraseando Lulu Santos, com "início, meio e fim". Desejo que seu ano seja maravilhoso, que seus filhos estejam bem e que tudo o que desejar se realize.
Grande abraço

por Késia Mara

Késia Mara disse...

Ah! seu desenho está fofo como todos o são, tem ternura neles. Brinquei de boneca até os 15 acredita?rsrs Desejo que sua semana esteja ótima.

Atenciosamente
Késia Mara

Márcia Cobar disse...

Ah Nina... sinto muito pela sua Vovó...
Coisa linda é amor de avó... Sentimento que um dia vai bater no seu coração, e vc vai sair desenhando os netinhos e as netinhas todo o Natal (além do ano todo :)
Bjim
Márcia

Carlinha disse...

Quando você escreve da sua vovózinha eu sempre choro. Você sabe que meu elo com vovó é tão forte quanto o seu com sua avó. Todo Natal eu imagino como será o dia que não terei ela no centro da mesa.
Esse ano tive coragem, depois de 10 anos, passar o ano novo longe dela,quando deu meia noite eu liguei para ela e quando atendeu eu chorei de só ouvir a voz...
Ai ai...Bom tê-la por todos os meus 25 natais.

Michelle Pires disse...

Oi Nina.Obrigada, minha vó realmente era uma fofa. Meu Natal sem minha vovó foi difícil mesmo. Pouco antes da meia noite nos reunimos para orar e foi inevitável todos nós chorarmos, um sentimento muito forte chamado saudade, se apoderou dos filhos e netos. Mas sim, conseguimos nos confortar com muitos abraços carinhosos e fé no aniversáriante.

Beijos Nina

Samarone Barcellos disse...

Ahh como eu gosto de histórias assim...é assim que percebo o quanto cada um é diferente do outro. Muito bom o seu blog e seus desenhos...
Feliz 2011 e voltarei mais vezes aqui. =]

Anônimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel

Nina disse...

Ei gente, pois é, a menina feliz teve na verdade, mts e mts dias tristes :-( esse foi somente mais um deles, mt marcante na vida, porque tinha minha vó...

Obrigada a todos pela visita e palavas gentis. Mi, entendo toda a saudade que vc sente.

Ahh Daniel,merci aussi!

Júlia Borges disse...

Natal pra mim, sempre tem tristeza... Sempre fica sobrando um presente embaixo da árvore...

http://www.equeroquevocevenhacomigotododia.blogspot.com/