24/05/11

Minha irmazinha mais nova

A chegada de um irmao é sempre um momento mágico. Eu tinha sete anos quando minha mae que tinha andado uns tempos com uma barriga enorme, de repente sumiu de casa. Nao lembro se houve explicacao. Ela simplesmente sumiu. E uma tia veio cuidar da gente, a tia Léa, a tia que morava do lado de nossa casa e tinha as seis filhas mais legais do planeta, nossas priminhas que tudo faziam com a gente, de ouvir  contos de fadas nos disquinhos do Sílvio Santos a bater em moleque de rua. Nao lembro muito desses dias, sem a mamae. Só posso imaginar que a gente ficava livre e brincava muito.
Da mamae grávida lembro muito pouco. Algumas cenas normais, como ela andando devagar, ou indo pro banho nos igarapés carregando aquela coisa pesada na frente que a fazia respirar de forma ofegante, ou uma cena, nada boa. Ela tinha (tem) esse marido, que era o pai do bebê que estava na barriga e nao era nosso pai. O nosso, era um papai que agora vivia sozinho, com um cachorro  chamado Saraiva num quintal grande sem nós, e que vinha nos visitar nos fins de semana, e que fazia filho adoidado por ali. Por lá. Por todo lugar.
Mamae e o marido brigavam e um dia ele chutou a barriga da mamae. E eu vi essa cena. E tive tanto ódio dele...

Mas só lembro disso.
Até esse dia, que estávamos brincando no quintal. Lembro que era de tarde, tinha um chao seco, esturricado, com sol forte, a terra  seca, amarelo claro, a poeira subia com o vento leve, e tinha um banheiro comunitário, do lado de fora da casa, uma casa de madeira, pobre  e velha chamada estância. Uma casa com vários vizinhos encostados que tinha as pernas altas e que fazia a casa ficar suspensa no ar. E foi por esse vao que vi mamae chegando, vi suas pernas chegando. Alguém gritou: "olha a mamae, a mamae voltou!"
E todos corremos até a mamae e ela carregava um bebezinho numa mantinha.
Ficamos muito felizes por ter nossa mae de volta e ter uma irmazinha nova.
Branquinha e pequenininha, bochechuda, cheia de cabelinhos pretos.
Ficamos por longo tempo encantados com aquela presenca. 
Pra mim, minha irmazinha era como se fosse meu bebê. Eu fazia tudo pra ela. Só ficava chateada quando mamae me mandava fazer seu mingauzinho exatamente quando comecava o Sítio do Picapau Amarelo. Eu ia muito brava pra cozinha! Mas ia.
E lembro muito da minha outra irma, que ficava na porta de casa, proibindo todo mundo de entrar dizendo que o bebê era só nosso.
Muito bom ter uma família que cresce. Muito bom ter irmaos e cuidar deles, tratar com amor, brincar, brigar, ver crescer. E aí um dia vê-los tomando conta de suas vidas, como se fosse quando eles finalmente conseguem aprender a pedalar, depois de termos muitas vezes ajudado, segurando atrás, colocando e tirando as rodinhas da bicicletinha. E aí, depois de muito ajudar e encorajar,  a gente vê o irmaozinho indo pra frente, com o cabelo ao vento, sorrindo e suando, pedalando sozinho, finalmente. 

A sensacao que tenho ao ver minha irmazinha hoje, formando família, trabalhando, crescendo, é essa. Pedalando feliz na rua de casa.
Minha irmazinha adorava a Xuxa!

4 comentários:

Chris disse...

Ahh que texto lindo, como sempre ne?
Cheio de emocoes e coisinhas engracadas. O final entao e tao bonito...bonito ver que sua irmazinha esta pelando feliz na vida.

Ate que as musicas da Xuxa nao eram ruins, e bem infancia anos 80 mesmo.

bjus

Mônica disse...

Nina
O seu texto é deliciuoso pois a gente vive a cena com voce.
Eu sou a mais velha de todos. Minha diferença para as caçulas que são gemeas sõa 8 anos.
Mas eu nunca achei que eram minhas pois eu não dava conta de carrega-las.
E na vida ela é que me adulam até hoje.
Eu nem acho que sou a mais velha pois dependo delas pra tudo.
Com carinho Monica

Drica disse...

Lindo! Lembrei tanto da minha infância...

Pramod Negi disse...

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