30/06/11

Colcha de retalhos

A gente vai completando a nossa vida aos pedacinhos, assim como é fazer uma colcha de retalhos. Juntando pedacinho aqui, pedacinho ali. Remendando. Um a um. E é um trabalho manual, braçal. Descomunal, até. Dá um trabalho danado. E às vezes, a gente tem que desfazer, ponto por ponto. A gente vai reclamando, mas vai fazendo, porque é algo que tem que ser feito, se a gente quer uma colcha bem feitinha, os erros tem que ser consertados... Queria ter o poder de voltar no tempo. Talvez eu notasse que nem tudo foi tão ruim quanto eu pensei. E esse voltar iria mostrar que tudo valeu à pena. Eu iria retornar ao ponto na colcha em que o alinhavo daria lugar a costura definitiva. Pespontada. E sem precisar voltar pra corrigir.
Quando eu penso em costura, a imagem mais nítida e mais presente na minha alma é a minha vó. Eu sei, eu sei, sei que me repito. Mas sabe? Faz tempo que não sou mais uma menininha feliz. Quero dizer, feliz eu ainda sou, mas o tempo passou pra mim, não dizem que velho repete as coisas?? Pois é... 
Minha vó. Não sei até hoje como pode caber amor assim dentro da gente. Como as pessoas que passam pela nossas vidas podem deixar tamanha marca. Marca que nunca sai, faca o que fizer. Indelével, pra sempre.
A minha vida começa, quando eu lembro da minha avó. É como se ela fosse o ponto de partida. A minha colcha de retalhos estava em suas mãos e ela repassou pra mim.
Não é assim, eu sei, a minha vó tinha a colcha dela e eu tinha a minha. Mas esta é a sensação. Ela me repassou algo que ficou pra sempre.

Hoje o dia está tristinho aqui. Não tem sol de verdade, tem só uma nuvem grande que cobre tudo. Ontem choveu. A temperatura está amena. E dias assim deixam a gente levemente sensíveis. Parei pra pensar na vida que se leva. Nas pessoas ruins, que não aproveitam o presente divino que é a vida que tem. Elas que pararam suas colchas no meio do caminho antes mesmo do tempo dizer: "é hora de parar a colcha, ou pronto, sua colcha está terminada, você agora pode deixar-se cobrir por ela e descansar um pouco".  Penso nas pessoas que morreram antes do coração realmente parar. Minha mãe dizia: "esse aí morreu e esqueceu de deitar" e é assim que algumas pessoas sem noção estão vivendo, meio mortas. 

Que pena!

5 comentários:

Gina disse...

Nina,
Essa é uma dura realidade para algumas pessoas. Umas percebem esse estado de coisas e entram em depressão. Outras, sequer se dão conta de que estão assim. Passa a ser normal viver da mesmice, da falta de esperança, de motivação, da energia que nos impulsiona a fazer alguma coisa, a repensar, a mudar.
Excelente reflexão para um dia frio...rs!
Chove e faz muito frio por aqui. Tivemos temperatura negativa há dois dias (-0,5, com sensação térmica de -6°). Mas hoje preciso sair da concha (minha casa) pra fazer algo muito prazeroso, um serviço voluntário com mães carentes.
Viver é bom demais!
Bjs.

Cláudia disse...

Nina, gostei dessa comparação da vida com uma manta de retalhos, é uma boa imagem. Vivemos fazendo pedacinhos e cozendo nos outros que já estão prontos, e às vezes é preciso desfazer um pouco, ou muito... mas tudo é aprendizagem.
Tb queria referir os seus desenhos. Fico abismada qdo os aprecio em detalhe: os traços parecem ser tão simples, e no entanto são tremendamente expressivos! Aí está um dom que eu amaria ter. Felizmente a minha filha gosta muito de desenhar, e desenha bem (eu acho - rsrs). Para compensar a minha falta de jeito. :)
Bjs

Mônica disse...

Nina
Que bela comparação!
E hoje já está novamente em moda fazer colchas de retalhos!
com carinho sua amiga MOnica

Márcia Cobar disse...

Nina, melhor que Mãe só Avó... É linda a maneira que você escreve sobre sua Vovó... me faz lembrar da minha, que é uma excelente costureira também. Apesar de seus alinhavos atualmente estarem tortinhos pela idade...
Eu particularmente adoro colchas de retalhos. Quanto mais diferentes os quadradinhos, mas eu gosto. A vida também tem sido assim... cheia de quadradinhos diferentes. Alguns muito difíceis de costurar. Outros mais fáceis...
Hunf...
Bjs minha querida. Continue costurando sua colcha com amor! E não brigue com seus paninhos ;)
Bjs
Márcia

Luci Cardinelli disse...

Que texto lindo! Me trouxe muitas lembranças :)
Tenho muita pena de gente que passa pela vida ao invés de vivê-la.